Bem-vindo!

Dada a minha relativamente rica experiência de vida, designadamente no âmbito profissional, foi-me sugerido por alguns colegas e amigos que a transmitisse, por intermédio de um blogue. Assim, aqui lhes irei transmitindo experiências de vida, de cariz profissional mas não só. Experiências desde a minha adolescência. Experiências com amigos e com causas. No fundo experiências de um português que nasceu no pós-guerra, que viveu a Ditadura e a Democracia, e que teve a sorte de ter uma vida compartilhada com tantos amigos...

Agradeço o vosso contacto para curvelogarcia@netcabo.pt



quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O acordo ortográfico

Como muitos amigos meus sabem, sou profundamente favorável à total implementação do atual e vigente Acordo Ortográfico entre os países de língua oficial portuguesa. Daí que este blogue, desde o seu início (há cerca de um ano e meio), seja escrito cumprindo as regras instituídas por este Acordo, daí que todos os textos que entretanto tenho escrito (dois capítulos de um livro, diversos artigos e comunicações científicas, ...) o tenham sido igualmente cumprindo essas regras.
A minha pátria é a língua portuguesa
(Fernando Pessoa)
Sei que é uma posição partilhada com muitos amigos meus e contrária à de outros também meus amigos.
Assim, optei por vir esclarecer publicamente as razões que me levaram a esta posição que tenho assumido.
- Não há uma língua de Portugal, uma língua do Brasil, uma língua de Angola, uma língua de Moçambique, uma língua de Cabo Verde, uma língua de S. Tomé e Principe, uma língua da Guiné-Bissau. Há apenas a língua portuguesa... a língua portuguesa que foi cantada pelo universalista Fernando Pessoa como a sua Pátria. A língua oficial de todos os países citados, a língua cooficial de Macau, de Timor Leste, a língua ainda falada em Goa e outras cidades indianas e até em algumas localidades do Uruguai. A língua que Miguel de Cervantes denominou de "doce". A língua que o escritor brasileiro Olavo Bilac poeticamente descreveu como a última flor do Latio, inculta e bela. É ainda a língua falada por 10 milhões de pessoas emigradas em outros países (designadamente 4,5 milhões de portugueses, 3 milhões de brasileiros e meio milhão de cabo verdeanos).
Uma língua que vem do ramo luso-galaico das línguas latinas, "adocicada" com a língua árabe... Uma língua que tem uma história, como todas as línguas vivas, atualmente faladas. Uma língua que, hoje, por ser viva, tem diferenças sobre o português escrito por Aquilino Ribeiro, por Fernando Pessoa, por Eça de Queiroz, por Almeida Garret, por Gil Vicente, por Camões... Uma língua que os portugueses levaram a outras terras (suas antigas colónias) e que, localmente, foram também sofrendo logicamente modificações. Uma língua que tem o seu Museu (Museu da Língua Portuguesa), desde 2006, em São Paulo, a cidade em todo o mundo onde mais gente se expressa na língua portuguesa (vídeo apresentado no final deste artigo).
Mas a língua de todos esses povos é a língua portuguesa!

- A língua portuguesa é pois a língua materna falada por mais de 250 milhões de cidadãos em todo o mundo. Daí a sua importância atual, sob múltiplos pontos de vista...
Um exemplo bem claro hoje, e de ordem prática, é a disponibilização em língua portuguesa de múltiplas bases de dados mundiais, de instruções de funcionamento de diversos equipamentos, de motores de busca na internet, etc.

- Parece pois claramente lógico, diria mesmo necessariamente evidente, a existência de regras ortográficas universalmente aceites por todas as comunidades que utilizam, para comunicar, a língua portuguesa. Notem que me refiro apenas à ortografia (único objeto do acordo) e não à pronúncia ou à forma de falar... essa continuará obviamente a distinguir sempre culturas diferentes... de Portugal, do Brasil ou de Angola. Continuaremos claramente a distinguir os diferentes dialetos nos diferentes países lusófonos: o alentejano, o nortenho, o micaelense ou o madeirense em Portugal, o baiano, o sertanejo ou o carioca no Brasil, o sulista ou o benguelense em Angola, ...

- Ao longo dos tempos, houve diversas alterações à ortografia em língua portuguesa (farmácia já foi pharmacia, fruto já foi fructo, ontém já foi hontém...): consequência de ser a língua  portuguesa uma língua viva!
- Não sou linguista, mas apenas utilizador da língua portuguesa. Sei contudo o caminho percorrido, durante duas décadas, por conceituados linguistas (caso, por exemplo em Portugal, do ex-Professor Catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa Malaça Casteleiro). Foi um processo que passou por diversas etapas, com recolha das opiniões, propostas e pareceres de quem o quis fazer.
- Uma das críticas que tenho ouvido ao Acordo é a de que não seria necessário haver uma uniformização ortográfica para a defesa da língua, apontando-se o caso da língua inglesa em Inglaterra e em diversos países ex-colónias deste país. Há que considerar que já houve acordos deste tipo entre estes países, embora muitas vezes com resultados um tanto tímidos, penso que resultantes da dificuldade do Reino Unido em aceitar alterações deste tipo (prefiro não fazer mais quaisquer comentários...). Por outro lado, veja-se o triste aspeto de, em tantas situações, termos de "traduzir" um texto americano ou australiano para um texto britânico!

- Já cheguei inclusivamente a ouvir que o Acordo atenta contra a identidade nacional, o que, em minha opinião, não tem qualquer sentido: o que está a mudar não é a língua portuguesa, mas sim alguns aspetos da sua grafia! Isto já aconteceu aliás diversas vezes ao longo do tempo (só no século XX, julgo que duas vezes), sem que a identidade nacional tivesse sido posta em causa.

- Um dos aspetos que mais é alterado, tem a ver com o deixar de se escrever as consoantes mudas, como por exemplo em palavras como  dire(c)tor, a(c)tor, a(c)tiz... É isto consequência de uma simplificação da ortografia e da consciência que diferentes grafias não beneficiam uma língua portuguesa forte (Malaça Casteleiro, Diário de Notícias, 2012-01-02). Acrescenta ainda este linguista: "se pensarmos nas crianças que estão agora a aprender, para elas é muito mais fácil escrever sem consoantes não pronunciadas; não é nenhum atentado".

- Outras das críticas que frequentemente é feita, centra-se em afirmar que Portugal fez mais cedências que, por exemplo, o Brasil.
Contesto inteiramente esta crítica por diversas razões: (a) em termos quantitativos, o Brasil introduziu mais alterações, designadamente nas acentuações (e digo isto com conhecimento de causa, pelo conhecimento muito direto que tenho deste país desde há alguns anos); (b) Portugal não tem mais direitos sobre a língua portuguesa que qualquer outro país lusófono, a bem desta língua (e recuso-me a aceitar quaisquer influências de raiz colonialista, mesmo que de subliminar consciência).

- Outra das alterações do Acordo tem a ver com a escrita dos meses do ano e dos dias da semana se iniciarem com minúscula. Nada me choca esta alteração, conforme os princípios que aprendi nos meus primeiros anos de escolaridade sobre "nomes próprios".

- Ainda segundo Malaça Casteleiro (Diário de Notícias, 2012-01-02), ... "as pessoas reagem muito à mudança porque, quando aprendemos uma palavra, aprendemos três coisas: o significado, a pronúncia e a grafia correta, e esta última fixa-se na nossa mente, como uma imagem gráfica (...); quando escrevemos, fazemo-lo de uma forma mecânica (com base naquela imagem)".

É esta a minha opinião sobre esta questão, numa matéria que me é bem sensível, como bem sabem aqueles que melhor me conhecem (ver, neste blogue, os artigos José Régio / Figuras e Saber ler / Opções de Cidadania).

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico

Vejamos agora o Museu da Língua Portuguesa


E terminamos com a grande brasileira Maria Bethânia interpretando a Mensagem do grande português Fernando Pessoa. É esta a beleza da língua portuguesa...

9 comentários:

  1. Excelente texto. Apresentada com maestria toda a fundamentação acerca da importância do acordo da nossa língua portuguesa.

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    1. Obrigado
      Acredito que o confronto de ideias é a melhor forma de progredir, em tudo na vida! Também a propósito do Acordo Ortográfico, aceito e desejo opiniões baseadas... mas não ser apenas a favor ou contra...
      Também aos que me dizem que são contra porque a sua língua é a de Camões, apenas pergunto se já tentaram ler algum texto ou poema original deste nosso grande poeta...

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  2. Caro bloguista,

    Encontrei por acaso este texto sobre o Acordo Ortográfico. Vi que está de acordo e tem todo o direito. Assim como tem outro qualquer direito, inclusivé o de dar erros, se quiser; assim como eu tenho o direito de ser contra.
    - o alentejano ou o nortenho... não são dialectos do Português;
    - Qualquer ex-aluno da faculdade de letras sabe que Malaca Casteleiro não é um insígne linguísta. Deve ter visto já o icebergue e o croissã que o povo "inculto!" escreve e bem "aicebergue" e croassã". De todos os escritos que li nos meus estudos de linguística, nunca li nada deste "claro" professor;
    - os mais importantes pareceres sobre o acordo, sempre foram contra: em Portugal e no Brasil,(para não falar do esquecimento de opiniões de CV, STP, Angola, Moçambique, Guiné: mas a língua portuguesa também se fala nestas paragens!);
    - gostava de ver um exemplo da necessidade de traduzir um texto americano ou australiano para o britânico; assim como gostava que me esclarecesse da necessidade de traduzir os autores portugueses publicados no Brasil ou vice-versa: será que os brasileiros não conseguiam ler Camões ou Pessoa? E nós não conseguíamos ler Jorge Amado ou Drumond de Andrade? Já agora, com acordo ou sem ele, experimente ler os textos mais marcantes de Guimarães Rosa!;
    - sgd M. Casteleiro, as diferentes grafias prejudicam uma LP forte; o que será então do pobre inglês com tantas diferentes ortografias!?;
    - o argumento de MC sobre as dificuldades das crianças é mesmo para rir;
    - o português europeu mudou muito mais do que o português do Brasil;
    - Não se trata de uma dificuldade em aceitar a mudança. Aqui reside o busílis da questão. Uma língua viva muda com o contributo e uso que fazemos dela, oralmente. A grafia cristaliza aquelas mudanças, respeitando, segunda a linguística, alguns preceitos: etimologia, analogia, relação com a pronúncia e o uso e costume. Ora neste acordo, tudo foi esquecido excepto a primazia da pronúncia. Foi tudo virado ao contrário; tanto assim que já vemos pessoas, em Portugal, a dizer "contato", quando ainda se diz "contacto"; também sabemos que algumas regiões do país dizem ainda o "c" de característica e de espectador (isto é pôr a grafia à frente da fala e a aniquilação completa do uso e costume dos falantes); qual o sentido da incoerência entre Egito e egípcio? (isto é o desrespeito total pela analogia das palavras);
    - Depois há ainda a questão estética! Sim a língua também se constrói esteticamente: "este ato é pernicioso!"; "Aquele espetador está eufórico";
    - Mas incongruência das incongruências: a dupla grafia que agora passou a vigorar, leia-se vulgarmente: excepção e exceção, secção e seção, mas também sessão e interseção e intersecção: não tudo isto ridículo? E foi o Brasil que mudou mais? Digamos, alguns acentos e o trema!?

    Entre o povo, no Brasil, a língua solta-se, é bonita, doce, maviosa, musical; entre os intelectuais, a língua no Brasil, andou e anda à solta. Digamos que o Brasil escreve o Português do século XVIII, com algumas modernices inglesas e francesas (ex. mídia e enquete) e umas quantas evoluções forçadas por alguns poetas modernistas, para marcar a diferença com a antiga colónia e nomedamente com Salazar. O Brasil tem o complexo de não ter feito uma guerra de independência contra Portugal, não precisou; ter-nos-ia aniquilado. Portugal deu-lhe tudo: aquele país imenso, riquíssimo e belo, uma língua belíssima e cultíssima, uma cultura clássica e ancestral e, infelizmente, até escravos, que continuaram a sê-lo mesmo depois da independência e até bem mais tarde do que em Portugal.

    Este acordo não serviu para mais nada senão para alguns se vangloriarem e poderem mostrar-se ao público e para nós, cidadãos comuns nos irritarmos e perdermos tempo e gastarmos dinheiro a um país individado, pobre e mal governado.

    Manuel Pereira (professor de Português no Luxemburgo)
    endereço electrónico: manuel-pereira@sapo.pt

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    1. Caro amigo.
      Agradeço o seu comentário que, reconheço, vem muito valorizar o meu artigo. Embora discordando de muitas das suas afirmações, até aprendi alguma coisa. É o benefício do confronto de ideias…
      Não sou linguista, mas sim um utilizador diário da língua portuguesa, quer lendo quer escrevendo, e como tal com direito a opinião. Sou químico e evidentemente aceito opiniões sobre esta matéria, de interesse para toda a humanidade, venham de onde vierem.
      Sinceramente grato
      A.S. Curvelo-Garcia

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    2. Manuel, sou brasileiro (descendente de portugueses) e o maior legado que vocês portugueses deixaram no meu país foi a língua. Muitos dizem que esse acordo foi elaborado de forma a beneficiar o português brasileiro. Discordo. Somente uma pequena porcentagem da grafia das palavras do português falado em Portugal sofreu alterações, sendo que tais alterações são mínimas, ou seja, não há alterações substanciais. O que deveríamos levar em conta, ao final de toda essa discussão, é a importância de termos a nossa língua valorizada no mundo. São cerca de 200 milhões de pessoas que raciocinam em português diariamente. Pensar a língua portuguesa de forma limitada a sua versão de Portugal significa negar a sua real dimensão no mundo e negar os milhões de falantes que também a consideram como língua própria, nativa. A língua portuguesa é de todos os lusofalantes. O fato de termos uma "padrão" para a nossa língua contribui imensamente para a sua valorização, além da difusão de ideias entre os países nos quais ela é falada. Um comentário a parte: é extremamente interessante podermos travar discussões como esta e pensarmos que cada qual está em um local do mundo se fazendo entender através da língua comum.

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    3. Caro amigo Manuel: agradeço seu comentário que vem reforçar ainda mais o que pretendi expressar neste meu artigo!

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  3. Caro amigo bloguista Curvelo-Garcia:
    sou português e amante da língua portuguesa.Concordo inteiramente com as ideias que expressa no seu artigo, explicitando de forma muito clara e baseada as virtualidades deste Acordo Ortográfico. Que diferença para a generalidade das críticas que tenho visto, onde não existe nada de sustentável e ainda por cima com algumas ideias neo-colonialistas à mistura. Aqui incluo os disparates de Miguel Sousa Tavares e de Vasco Graça Moura.
    Obrigado pelo seu importante contributo para a defesa da língua portuguesa!

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  4. Para apoio deste meu texto, a seguir indico alguns outros textos, de entre muitos (dezenas, centenas, milhares...) que poderia citar, à laia de bibiografia:
    http://democraciadasfalacias.blogs.sapo.pt/9414.html
    http://esabelsalazar.pt/portal/ficheiros_pdf/AO/A%20mai%20e%20o%20pae%20da%20ortographia%20portugueza.pdf
    http://esabelsalazar.pt/portal/ficheiros_pdf/AO/A%20lingua%20portuguesa%20vai%20ter%20oito%20ortografias.pdf
    http://esabelsalazar.pt/portal/ficheiros_pdf/AO/Uma%20lingua,%20uma%20ortografia.pdf
    http://esabelsalazar.pt/portal/ficheiros_pdf/AO/Um%20ce%20a%20mais.pdf

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  5. Olá, Curvelo-Garcia

    Gostei muito do que escreveste aqui em teu blogue. Fico contente que pessoas iguais a ti existam. Infelizmente há muita ignorância. Penso que a língua portuguesa está 'fazendo' sucesso em vários países, como a Russia, devido as condições econômicas de meu país, Brasil! Quer isto dizer que é ruim para Portugal? Não! Portugal agora deve colher os frutos de ter levado ao mundo sua língua. Algo semelhante a Inglaterra faz pois, lucra muito com o ensino de sua língua valendo-se da importância que a mesma tem graças aos EUA e sua economia incontestavelmente imensa.

    Viva a Língua Portuguesa em todas as suas variantes!
    MANOEL (BRASIL)

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